Diário de Ourinhos


Assine o Diário - 3324 4729

Vestibular Estácio de Sá

Colunistas

Algo estranho no ar

Hoje ao ler os jornais senti certo mantra de otimismo em relação à economia do Brasil. No jornal alemão Der Spiegel saiu que o Pai dos pobres provocou o Milagre Econômico no Brasil. Isso o faz lembrar de algo, caro leitor?

Pai dos Pobres (e mãe dos ricos): Getúlio Vargas. Milagre Econômico: política desenvolvimentista na época da ditadura comandada a mão de ferro por Delfim Neto com intenso intervencionismo do Estado na economia.

Num dia nosso querido Presidente recebe o Presidente reeleito do Irã com “63% dos votos” e no outro dia diz que o Brasil não vai reconhecer a eleição de Honduras marcada para o próximo domingo. É contraditório? Não sei! Como diz o jornalista Uruguaio Eduardo Galeano, o Mundo está de Pernas para o Ar ou estamos numa Escola do Mundo aos avessos.

Corro mais um pouco os olhos na matéria do jornal e vejo que o nosso Presidente também está sendo comparado com Franklin Delano Roosevelt que em meio a grande crise americana de 1929 represou o Rio Tennessee para gerar energia à região e lançou o New Deal (plano econômico) que salvou os Estados Unidos da Grande Depressão.
Cortejado por Obama a Sarkosy, Lula hoje é o queridinho de Wall Street. Cheio de autoconfiança virou personagem de filme: “Lula, o filho do Brasil”.

Fernando Henrique Cardoso tem constantemente alertado que a oposição não consegue “desconstruir” o discurso do presidente e muito menos manter uma base de oposição coerente. Teme que o país esteja caminhando para o autoritarismo e que logo seremos um capitalismo de Estado, ou como gosto mais: um socialismo de mercado.

Bom, aí as coisas de certa forma se encaixam. Porque o Milagre Econômico de épocas atrás estava intrinsecamente ligado a uma política de intervenção do Estado na economia (escola keynesiana). O Brasil tem tradição no controle total da economia desde a década de 30 do século passado, então, não há nada de novo no front.

Depois da crise que assolou os EUA e que refletiu no mundo inteiro, menos no Brasil que apenas sentiu uma “marolinha”, medidas intervencionistas foram tomadas para conter a crise por toda parte do planeta. A crise é global assim como a economia capitalista. Uma só teoria econômica ou política não é suficiente para analisar qualquer quadro atual, aliás, parece-me que nenhuma fórmula se aplica frente a um mundo globalizado e com dissolução do tempo-espaço.

Falam do nosso país como tendo criado um Plano Marshall próprio: privatizações na década de 90 e a Petrobrás e a descoberta da camada pré-sal (a divisão dos royalties está causando confusão hoje no Congresso e o Governador do RJ está muito bravo).
Enfim, após o apagão e um Estado burocrático, lento, cheio de ferrugens e frestas, vemos uma eleição logo à frente.

Eu não acho o Governo Lula completamente ruim não, mas também não é ótimo. Até porque sou realista suficiente para saber que problemas de séculos não serão resolvidos em poucos anos. O que penso sobre o nosso país é que se o abismo que separa os mais ricos dos mais pobres vier a diminuir, bem como outros tipos de desigualdades, temos grandes chances de deixarmos de ser uma Belíndia (Bélgica com Índia) ou mesmo um país do futuro para viver o presente, a nossa história do tempo presente.

E a única forma de transformar a dura realidade consiste em conhecê-la. Sinto saudades de um país que ainda não existe e a memória guardará o que vale a pena, pois para navegantes ávidos por vento, a memória é um ponto de partida.

"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar." (Eduardo Galeano).

APARECIDA DE LOURDES SALINA

Historiadora

luly-salina@uol.com.br

+ mais sobre o autor +

Ver mais artigos

Copyright @ 2009 - Diário de Ourinhos - Todos os direitos reservados | Desenvolvido por