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Amor Grande Hotel

Paula Toller com sua voz suave canta: “poderia ter vivido um amor Grande Hotel”. Grande Hotel era uma revista feminina das décadas de 60/70 que fazia muito sucesso por conta das fotonovelas, o hit da época. A revista também dava dicas para as mulheres preservarem o seu casamento e de como ter uma união feliz, tipo: se seu marido disser que vai sair com os amigos para tomar uma cerveja, não faça dramas, deixe. Aproveite o tempo em que ele estará fora para se arrumar, ficar linda e cheirosa para quando o ‘marido’ voltar. Isso sem falar que as novas tecnologias permitiam que as donas de casa tivessem mais tempo de cuidar da aparência para agradar os ‘maridos’. Era comum ‘reclames’ de mulheres com bobs na cabeça passando enceradeira pela casa. Bom isso me criou um incidente acadêmico porque eu, de cara, achei que isso era um discurso machista e de subserviência da mulher, mas meu interlocutor disse que não, que isso era um discurso emancipatório para as mulheres nos efervescentes anos 60.
Então tá, quem sou eu pra discutir com quem tem pós-doutorado na França, orientado por Roger Chartier, enfim, é o Cara. Ah, e se alguém tiver revistas femininas das décadas de 60 e 70 que possa disponibilizar para pesquisa avisem ao jornal, meu interlocutor e eu agradecemos. Eu não vou entrar na profundidade do assunto, mas depois do incidente passei a ler mais coisas e continuo achando que era discurso machista, mas que de certa forma acabou sendo favorável para emancipação feminina. É como o lance da dose do veneno que tanto pode matar como curar.
Começo 2009 com muitas notícias de mulheres que conheço que estão na política. A Fátima, em Itaju, entra no seu 4º mandato de prefeita. Em 1982, quando ela se candidatou pela 1ª vez, era chamada de A Moça e foi notícia em muitos jornais e TV porque além de jovem era mulher. Para mim, na História, a Fátima é uma das pioneiras. A Silvânia em Turiúba entra no seu 2º mandato. A ‘menina maluquinha’ que já foi 1ª dama, estreou 2009, linda, jovem, alegre e avó e, de novo, prefeita. O Clewis saiu da política, mas a Silvânia pegou gosto.
Outra que foi 1ª dama e hoje é prefeita é a Virginia em Bastos. A Maura em Santa Cruz entrou para História ao se tornar a primeira mulher eleita para prefeita, isso depois de ter sido vereadora e vice-prefeita. A Cecília em Álvares Machado está, salvo engano, no seu 3º mandato de vereadora, intercalando com duas vezes que foi 1ª dama. A Bete, de São Pedro, também é vereadora e já foi 1ª dama. A Belkis está no seu 3º mandato como vice-prefeita de Ourinhos. A Alda é vice-prefeita e secretária da Assistência e Desenvolvimento Social da maior e mais importante cidade da América latina, São Paulo.
Mulheres comuns, micro-histórias e micro-análises. Mães, esposas, educadoras, profissionais que superaram o discurso machista, romperam com preconceitos, quebraram paradigmas e hoje são líderes políticas e administram além da casa, sua cidade.
Vou deixar de citar tantas outras mulheres que conheço que ocupam cargos eletivos ou fazem parte de uma administração, mas é só para voltar aos anos 60 e a revista Grande Hotel e dizer que meu interlocutor está certo em seu pensamento e que eu também estou. A discursividade, principalmente a de gênero, dos anos 60/70 sem dúvida transformou o mundo. Eu acho machista o ditado que diz que atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher; enaltece a importância feminina, mas continua relegado o segundo plano. Mulheres inteligentes não andam atrás de nenhum homem. São independentes e inovadoras, conseguem ter vida pessoal e profissional, dão conta do recado com sabedoria, criatividade e pensamentos próprios. Mulheres coragem.

Comentários

Marcelo Cabeda 22/05/2009

Curiosamente nesta noite que te leio Lú, percebo que hoje, quando eu meu discurso professoral abordava questões de cidadania minutos atrás!? Eu falei no significado da cidadania, entre múltiplos exemplos, um que é a condição entre os sexos, e mencionei que na década de 60 as mulheres que ousavam falar pelos seus direitos eram chamadas de "sapatões". Mero engano. Caráter é caráter. E direito, por princípio, é igual para todo o cidadão.
Gostei.
Prof.Magnético


APARECIDA DE LOURDES SALINA

Historiadora

luly-salina@uol.com.br

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