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Sobre o amor e o tempo

Nem sempre temos discernimento para entender nossas atitudes. Algo lá no fundo nos empurra para uma decisão, mas não nos dá muita clareza.

Algumas decisões são simples, descomplicadas, banais demais até para exemplificar.
Mas quando o assunto é o coração, ah o amor, aí certamente entramos num labirinto sem saber ao certo aonde vai dar, ou nos perdemos dentro dele e nos deixamos levar, ou simplesmente, como na estória de João e Maria, marcamos o caminho pelo qual entramos para saber por onde voltar.

O labirinto do amor é mágico, é envolvente, inebriante, alguém lhe carrega pelas mãos por caminhos tortuosos, mas repleto de flores, cheiros e gostos de todos os tipos. É o perfume inebriante da paixão que nos guia e as paixões nem sempre são confiáveis. Paixões não me encantam por muito tempo. São como canto de sereias que nos puxam cada vez mais fundo.

De repente o labirinto vira uma zona de conforto do qual não queremos mais sair, entretanto, numa lógica que desafia qualquer lógica, a zona de conforto começa a incomodar porque não é real e sim, ilusória e passageira. Assim como a vida que julgamos existir.

O amor é bom, não quer o mal. Toda paixão é vaidade. E quando o sol bate na janela você acorda e vê que do lado de fora existe um mundo que não é mágico, que não transforma ninguém em outra pessoa, que fere mesmo sem querer ferir.

Percebe que não é quem você gostaria ser. Percebe que os anos passam e que o tempo é impiedoso e pior, que aquele tempo não é o seu tempo. Aí não resta outra coisa a fazer do que retroceder pelo caminho marcado num momento de lucidez e fugir do labirinto abandonando os faunos, as sereias e todos os minotauros que possam assombrar as noites lembrando do tempo que não é seu.

Do lado de fora você fica mirando o labirinto e sente fascinação por ele. Sente saudades das aventuras, daquelas mãos que te guiaram, daquele sorriso que iluminou a noite escura, daquele corpo amigo que muitas vezes te acolheu servindo de alento e abrigo.
Fica olhando e percebe que nunca mais vai conseguir transpor aquele portal, pois ao sair, as portas cerraram para o sempre, pelo menos para você.

Você chora e se desespera. Espera um milagre, espera que a magia volte a habitar seu ser. Em vão. O tempo é assim: você nunca consegue fazer voltar e muito menos fazer avançar.

Não dá para se arrepender e nem imaginar o que poderia ter sido. A vida continua, nada para o tempo, nem milagres, nem magias. Ele segue lento, rápido – depende; e você vai dentro dele sem saber aonde e se vai chegar. Engraçado, de volta ao labirinto apenas com uma diferença: no labirinto da vida, ao contrário do da paixão, você não tem como marcar o caminho para voltar. E a vida não é feita de contemplação, mesmo isso sendo necessário para nosso desenvolvimento emocional e cognitivo. A vida é feita de decisões, umas mais fáceis, outras mais difíceis, mas a cada momento, como o de agora em que escolho as palavras para escrever, tomamos decisões.

Sair do labirinto da paixão é uma decisão muito difícil, dolorosa e profundamente marcante de se tomar, mesmo sendo necessária.

Porque não é paixão que eu sinto. É amor. Puro, sensato e verdadeiro.

Maldito seja o tempo que nos separa. Bendito seja o amor que nos uniu...

Comentários

Angela 31/08/2009

Gostei. Principalmente da frase: "O tempo é assim: você nunca consegue fazer voltar e muito menos fazer avançar". Por isso e por aquilo que o tempo é sábio. É algo dado por Deus (eu acredito) e que me faz ter fé de que dias melhores virão e que sempre haverá uma luz no fim do túnel.


APARECIDA DE LOURDES SALINA

Historiadora

luly-salina@uol.com.br

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