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Fui turista em São Paulo

Tirei uns diazinhos de férias e fui passear em São Paulo. Não poderia ter sido melhor. Logo no dia que cheguei fui ao teatro assistir a peça “Alma boa de Setsuan” adaptação de Bertolt Brecht com Denise Fraga no papel principal. Tanto na Folha como na Veja as críticas são excelentes ao espetáculo, mas algo me chamou a atenção: Comédia.

Bom, a Denise Fraga tem uma trajetória em comédias, porém, Bertolt Brecht foi um dramaturgo alemão dos mais engajados socialmente e suas peças não são comédias; são retratos da dura realidade dos trabalhadores no final do século XIX e começo do XX na transformação do homem em “máquina” e tendo como cenário a miséria, tanto a material quanto, e principalmente, a humana e essa peça foi escrita em 1941 durante o seu exílio imposto pelos nazistas. O teatro fica localizado num hotel luxuoso nos Jardins e as pessoas que estavam no saguão aguardando o início tomavam espumante, café ou água mineral. Eu estava num ambiente requintado de revista de famosos: bonitos, bem-sucedidos e bem-vestidos. Tudo estava fora do seu contexto, inclusive eu, mas como sou quase foucaultiana, desconstruí todos os contextos.

Meu amigo me explicou que era uma ‘adaptação’ do Brecht, ah tá – pensei. Foi um espetáculo e tanto, quase duas horas de duração! Realmente a comédia imperou, mas ao final permaneceu a reflexão brechtiana: como ser inteiramente bom sem ser esmagado pelos valores burgueses, na busca desmedida do ter muito mais importante do que ser? Aliás, não é que permaneceu, o próprio Brecht não deu final a peça, deixou para que cada um refletisse sobre o assunto, porque não tinha como concluí-la. Ao sair do espetáculo dava para ver estampado no rosto de muitos que pensar sobre isso não era bem o que eles buscavam e escutei alguns comentários não muito favoráveis, desnecessários se conhecessem as obras de Brecht.

Não é que depois de toda crítica social da peça acabei em frente do novo (para mim) Fasano e fiquei admirando a arquitetura impecável do Isay Weinfeld? E já que estava no embalo, pedi ao meu amigo que me levasse dar umas voltas e acabei por ver outra obra do Isay, o edifício Metrópolis estilo retrô anos 50. Acho que é a paixão pelo cinema e pelos ares do pós-modernismo que o arquiteto Isay Weinfeld constrói suas obras-primas. E quem quiser conferir é só acessar www.isayweinfeld.com, tá?


No domingo fui ao cinema assistir Ensaio sobre a cegueira, mais uma sugestão nota 10 do meu amigo. Já tinha lido no blog do Saramago que nunca havia autorizado filmarem uma obra sua, porém, se encantou com a fidelidade do roteiro de Fernando Meirelles. Se ele se encantou imagina quem assiste? O filme é pesado, visceral e é preciso ter a mente quieta para assisti-lo, pois provoca reações inesperadas porque expõe os instintos primários do homem e apenas uma meia dúzia de pessoas tenta buscar a humanidade perdida. Filme imperdível! Espero que chegue logo em Ourinhos.

Ainda no espírito da boa-venturança, na segunda-feira parti rumo à Pinacoteca que há muito tempo queria conhecer. Depois de algumas horas vendo obras de arte, sentei-me calmamente no Café e fiquei admirando a beleza e o restauro do Jardim da Luz. Você consegue nem se dar conta que fora dali existe uma cidade pulsante e que não pára nunca, exceto pelo trânsito caótico, e em clima de eleições.
Eu realmente gosto muito de São Paulo, afinal vivi lá durante 14 anos e passar quase uma semana de turista e bem acompanhada foi muito bom, mas a sensação ao avistar as luzes de Ourinhos foi de enfim, cheguei em casa e em paz refleti que o importante não são os lugares que você visita e sim para onde você volta.

APARECIDA DE LOURDES SALINA

Historiadora

luly-salina@uol.com.br

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