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Nas comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, a Prefeitura Municipal de Ourinhos nos agraciou com a exibição no Teatro “Miguel Cury” dessa obra de rara beleza e profundidade subjetiva do Diretor Hirokazu Koreeda. Estamos acostumados com uma História pontual, factual, carregada de heróis e feitos espetaculares e, de modo geral, não nos sentimos parte da História porque História é passado e também porque não nos sentimos atores importantes nessa construção.
Vejo a História como construção subjetiva. Tanto quanto na genética, no que diz respeito à memória seletiva, na escrita da História isso também acontece. Não existe uma única verdade. Cada um constrói a sua verdade de acordo com sua vivência e participação. O Historiador não é neutro, ele é sujeito e carrega uma série de discursos infligidos ao seu corpo e mente durante sua existência.
O cenário do filme poderia ser uma das Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino. Imaginadas por Marco Polo e narradas de memória - fermentada e dilatada em sua fértil e fantástica imaginação - ao fascinado Imperador Kubla Kan que por não poder viajar, fazia com que Marco Polo lhe contasse suas aventuras com o objetivo de ampliar seus horizontes e ter em mente o mundo grandioso que existia no seu infindável domínio. Ora, a memória das viagens é construída de acordo com os interesses tanto de Marco Polo quanto de Kubla Kan.
No filme Depois da Vida, aqueles que precisam eternizar uma recordação, também são induzidos a essa construção. Santo Agostinho fazia uma análise das narrações: “Chego agora aos campos e às vastas zonas da memória, onde repousam os tesouros das inumeráveis imagens de toda a espécie de coisas introduzidas pelas percepções”. A isso, ele denominava “contar uma coisa de memória”, uma viagem pela mente, uma estratégia de olhar. Não se faz essa viagem fisicamente e sim pelo pensamento, interiorizando percepções, com o espírito em movimento, olhando sempre o novo, investigando e descortinando o aqui e o ali. Talvez essas percepções sejam inerentes ao viajante, porque ao morador tudo está inserido no seu costumeiro e ele não sente o efêmero, seguindo como um cativo de seus hábitos ou de seus interesses. A memória é uma floresta e você constrói os atalhos para seguir seu caminho.
Na pós-modernidade a busca pela verdade é uma constante como também, a sua contradição, de que nada é verdade. Existem verdades distintas e discursos distintos. Um movimento centrífugo e centrípedo, uma estratégia de olhar distanciado e olhar aproximado. Parece que estamos suspensos no vazio, porém agrupados em memórias, desejos, símbolos, trocas, olhares, continuidade, descontinuidade, mortos, vivos, céu, inferno e ocultações. Num delírio que extrapola a lógica e rompe o discurso fantástico de uma rede de signos que ora, renova, ora subverte fatos, abandonando o consciente e navegando no inconsciente. Dizemos adeus à imutabilidade e aos pensamentos cristalizados e não nos deixamos levar mais pela lógica e sim pelo sensitivo, numa linha reta, mas sem a percepção de quem está dentro ou quem está fora, sendo que muitas vezes, nem percebemos que já passamos.
No filme Depois da Vida temos uma única lembrança para guardar para a eternidade, isso me remete ao totalitarismo. No livro Cidades Invisíveis uma nutre a outra, explorando o mundo em espelhos, mundos ficcionais, ilusórios, partes perfeitas que se unem a um todo, sem ser totalitário. São inúmeras mulheres as cidades. Todas fortes, bem constituídas, labirínticas, matruskas frágeis dissimuladas e ocultas.
Se no filme você só tem uma opção, no livro você tem várias. Marco Polo caminha de uma para outra construindo sua narrativa ficcional atendendo a seus interesses e aos interesses de Kubla Kan. Em algumas ele ficou mais tempo percorrendo seus labirintos. Noutras deixou saudades. Noutras tem passagem livre e hospedagem garantida. Em algumas, simplesmente não pode voltar. Noutras sequer deixou memória. Outras sequer existiram. Contudo, todas trazem em si um germe de prosperidade e destruição.
De modo que tanto no filme, quanto no livro, há a perspectiva de uma fenda que cada infeliz contém uma felicidade que nem mesmo sabe que existe. Todo princípio negativo é portador de um princípio positivo que a qualquer momento pode revelar-se. Cada porta abre um mundo utópico, uma revelação quando estamos atentos. É um olhar que não é ver, é sentir, é emergir. É essa a ambigüidade humana: depende da percepção do olhar ao debruçarmos sobre a História que nos apresentam como sendo uma construção espetacular e que oculta a simplicidade, as pequenas coisas que constituem a rede que faz movimentar a grande roda da História.