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Fui ao show do Beto Guedes. Meu Deus, que emoção, meu coração palpitava e dos meus olhos escorriam, discretamente, lágrimas saudosas.
Tinha uma turma em Bariri que o ponto de encontro era numa loja de discos, Regional dos Discos. Era o Clube da Esquina de Baririshinikov – alusão ao bailarino russo Mikhail Barishinikov, aliás, teve um ano que o bloco de carnaval foi exatamente Baririshinikov, todos os meninos vestidos de bailarinas cor-de-rosa, um show!
Beto Guedes, Lô Borges, Flávio Venturini, Milton Nascimento, Fernando Brandt...tantos, mas para mim, Beto Guedes era o melhor porque um namorado da época me presenteou com o LP Viagem das Mãos que tinha duas músicas que marcaram nossa curta história de amor, Quando te vi e Amor de Índio. Apenas seis meses de namoro e anos de contato. Por telefone, cartas e pasmem, por telex! Sim, telex, aquele aparelho ultrapassado que existiam em bancos e usados para passar informações entre agências. Eu no Bradesco e ele no BEMAT.
Eu pedia sempre ao gerente para ficar no horário de almoço passando telex, responsável que sempre fui, fazia o trabalho primeiro, mas depois...bom, funcionava assim, você discava o número do telex que queria falar e quando atendia você passava a escrever como numa máquina teclado. Horário combinado, eu ligava no BEMAT e o Lee atendia e ficávamos conversando em tempo real, a diferença entre um computador ou Messenger, era que as mensagens saiam escritas num formulário contínuo e não numa tela. Quando penso nisso me considero plugada na rede há muito tempo porque eu namorava ‘telexmente’. Durante anos mantive essas conversas guardadas dentro de uma lata da marca Fiorucci, must da década de 80, junto com fotos, cartas, uma caixa de fósforos, um papel de bala e um ‘beijinho’ de canudinho de tomar refrigerante.
Lembranças do meu namoro, meu relicário. Eu casei, Lee casou. O destino nos levou a caminhos diferentes, mas nossa amizade e carinho fizeram com que mesmo distantes nunca deixássemos de manter contato. Sempre brincávamos que um dia, bem velhinhos, estaríamos juntos. Os filhos dele, a minha filha e nossos filhos e nossos netos, felizes. A última vez que ele falou comigo foi por telefone, disse que era urgente e pediu desculpas por ligar na minha casa e eu, simplesmente, disse que não havia ninguém com aquele nome e que ligou para número errado. Se eu soubesse o que hoje sei, jamais teria feito isso. Mas nós não vivemos de SE. Nunca vou saber o que ele precisava me dizer, nunca mais vou ouvir a sua voz. E pior, não serei uma velhinha feliz junto dele.
O Lee morreu. Um dia uma amiga me sugeriu uma leitura, Os sonhos não envelhecem – história do Clube da Esquina de Márcio Borges. Devorei o livro. Toda vez que a saudade é demais ouço Beto Guedes e leio páginas aleatórias do livro. Não sofro mais. Hoje é uma saudade gostosa, saudável e sinto uma paz inacreditável. Como a morte interrompe tudo em vida, faço de conta que foi um sonho e como os sonhos não envelhecem, guardo em mim as boas lembranças e os bons momentos. E como diz a música “Quem sonhou só vale se já sonhou demais, vertente de muitas gerações, gravado em nossos corações, um nome se escreve fundo. As canções em nossa memória vão ficar, profundas raízes vão crescer, a luz das pessoas me faz crer e eu sinto que vamos juntos. Oh! Nem o tempo amigo, nem a força bruta pode um sonho apagar”.
Sigo em paz minha vida e um dia, amigo, quem sabe, a gente vai se encontrar. Obrigada Beto Guedes por cantar minha curta e eterna história de amor.
Orgulhoso de vc Luly. Inveja do Leendo texto.
a forma de ver e rever a vida é uma questão mesmo de repertório... de experiências.
só você para conseguir unir nostalgia, informação, tecnologia, amor e amizade!
adorei o texto!
Que lindo Saly...era como eu a chamava...quantas lembranças boas...como a gente era feliz, grandes amores, muitos sonhos e muita inocencia, era isso que nos movia. Quando li seu artigo, vieram tantas lembranças, por um momento voltei no passado e senti tanta saudade...que até doeu...queria tanto que o Lee lesse, ele ia gostar muito de saber o quanto foi importante pra voce...o quanto marcou sua vida...o quanto marcou seu passado.
Beijo grande amiga dos bons tempos
Lu